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terça-feira, 6 de setembro de 2011

Santo Agostinho


“Meu coração está inquieta, enquanto em vós não descansar”

PÁSSARO MORTO


Durante muito tempo me interroguei
quando virás? Quando surgirás tu?
Nascerás da erva
emergirás do desconhecido
ou não és mais que um impossível amanhã?
Durante muito tempo me interroguei
e quando sondei os espelhos do tanque
dispersei-me entre os fragmentos dos espelhos
não encontrei o meu rosto em estilhaços
Vi-te a ti
e quando estendi as mãos
para tocar o teu rosto
os sinais da minha última ilusão dissiparam-se
tu dispersaste-te como os espelhos do tanque
e sobre a água ficou
um pássaro morto

[Rembrandt - Homem nu sentado no chão com perna estendida]





Afastámo-nos. Culpa minha, em grande parte. Achei que estávamos demasiado apegados um ao outro. Achei que era excessivo. Achei que nos estávamos a prejudicar um ao outro. Não tive a clarividência de perceber o óbvio. Tu não sei se o percebeste. Acho que sim. Compreendeste, pelo menos, que, naquela altura, o nosso afastamento era inevitável e imprescindível. Sem dramas, sem zangas, acabámos por nos ir apartando. O que vivíamos não era já saudável. Era excessivo. Era como um namoro não assumido. Um namoro sem consumação física. Mas não um namoro qualquer. Era quase uma obsessão. Vivíamos um para o outro. Havia até cenas de ciúmes, disfarçadas de brincadeira. E eu não tinha a clarividência de perceber o óbvio. Tu deves tê-lo percebido. Entre nós havia aquela amizade louca, excessiva, quase passional. Mas isso não te incomodava. As coisas tornaram-se claras para ti, muito mais cedo do que para mim. Sabias onde ficavam os teus limites, e sobretudo sabias onde ficavam os meus. Sabias que eu não os ultrapassaria nunca, pela amizade louca que te tinha. Portanto isto não te incomodava. Não te incomodava ir comigo a determinados sítios. Não te incomodava que passássemos por namorados, não o sendo. Não te incomodava simulares cenas de ciúmes diante de quem pensava que éramos namorados. Porque sabias que eu nunca passaria os limites que me tinha imposto a mim mesmo. Porque te respeitava, porque te tinha uma amizade desmesurada. Além de tudo o resto. E foi porque o percebeste, e foi porque a adoração que te tinha era de facto desmesurada, que conseguimos reatar a nossa amizade de modo tão natural, como se nada tivesse acontecido. Como se ainda na noite anterior tivéssemos feito mais uma das nossas loucas saídas. Hoje percebo-o, finalmente.

VENTOS


Ventos fracos.
Ventos fortes.
Ventanias.
Retirem
de minha mente
o que tirar
não consigo.

Homem nu


Ao me revelar para você,
perdi a proteção
que me envolvia.
Fiquei nu.
Retirei minha fantasia.

Intimidade



Hoje resolvi limpar minha casa,

um dia nublado, no som Ana Carolina,

sua melodia desperta meu lado macho,

paro no meio, não limparei mais nada,

deixa as gavetas bagunçadas, o freezer entupido de gelo,

quero uma dose de vermouth,

uma foto da Marilyn Monroe de salto e batom vermelho,

matar meu desejo solitário,

gozar, melar a cama, como aos treze toda noite ...

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"Napola" Elite für den Führer (Before The Fall)













por Oscar Peyrou Karlovy Vary (República Checa), 6 jul (EFE). "Napola", um violento filme alemão de Dennis Gansel sobre as escolas criadas pelo Terceiro Reich para educar os jovens com métodos humilhantes, foi exibido nesta segunda-feira, no festival de Karlovy Vary.

"Napola" é a sigla em alemão dos Institutos Político-Nacionais de Educação criados por Hitler para sentar as bases de uma "nova raça".

Através de múltiplos testes, eram escolhidos os adolescentes mais capazes psíquica e fisicamente para serem educados como a elite que governaria a nova sociedade.

Os métodos utilizados pelos professores visavam à total degradação dos alunos para que eles pudessem ser manipulados por seus chefes em todas as circunstâncias.

O tema do filme foi tabu durante muitos anos, já que os egressos dessas escolas não gostavam de falar sobre suas experiências juvenis, freqüentemente humilhantes.

Como eram crianças, não se submetiam voluntariamente às pressões psicológicas, mas obedeciam as ordens de seus pais e professores.

As escolas tornavam-se uma espécie de família substituta à qual eram confiados os jovens indefesos para o doutrinamento.

Eles, de fato, foram engolidos pelo regime nacional-socialista, como nenhuma outra geração o tinha sido antes.

O ator Hardy Kruger, que estudou em um desses institutos, fala de "feridas na alma". Mais de 15.000 meninos e meninas passaram por alguma dessas escolas de elite da Alemanha nazista.

Em 1945, havia quarenta "Napolas", e era planejada a criação de mais cem para o período posterior à "vitória final" do Reich.

Os estudantes eram treinados também militarmente e usavam uniformes. Como foi dito, o objetivo principal era a transmissão da ideologia nazista.

Hitler pensava que a construção do "novo homem" levaria duas gerações. No entanto, o método não durou sequer uma: depois de doze anos, o "Reich de Mil Anos" foi liquidado.

Dennis Gansel disse, antes da exibição do filme, que a primeira notícia que teve desses institutos veio através de seu avô, que tinha sido professor em um deles, aos 24 anos, em 1940.

O avô contou sobre as duras condições de ensino, mas também da camaradagem, que continuou cultivando com muitos ex-cadetes até sua morte.

O outro filme apresentado hoje na sessão competitiva oficial foi o islandês "Niceland", de Fridrik Thor Fridriksson. A obra conta uma história melodramática de um casal de namorados com problemas mentais que lutam por sua difícil felicidade em uma problemática sociedade de consumo.

"Niceland" é outro drama que, assim como "Napola", abusa do sentimentalismo. Neste caso, o diretor, além disso, se diverte nos golpes baixos e na descrição grosseira da psicologia dos personagens.

Este é o oitavo filme de Fridriksson, cuja obra mais conhecida é "Born Náttúrunnar" ("Filhos da Natureza", no Brasil), de 1991, seu segundo longa, que foi indicado ao Oscar.

Em geral, o cinema do diretor islandês pretende mostrar as raízes da cultura de seu país, mas, como neste caso, o que apresenta se parece suspeitosamente aos costumes popularizados por Hollywood.

Assim como o filme alemão, baseado em fatos reais, ele tem uma estrutura mais americana do que européia.