O uso freqüente da internet reduz nossa capacidade de ler textos longos, diz especialista.
Com pouca paciência para
textos longos,
leitores do mundo virtual limitam-se
a ler
títulos e resumos.
Os artigos e livros de Nicholas Carr têm sido uma fonte de desgosto para os aficionados de internet. No início deste ano, o jornalista e escritor americano lançou The Big Switch (“A grande virada”), em que revela os perigos de uma rede de compu-tadores cada vez mais inteligente e poderosa. Agora volta à carga em artigo na revista Atlantic Monthly, no qual aborda uma ameaça mais sutil do mundo virtual. Carr deu-se conta dela ao perceber que tinha cada vez menos paciência para ler textos longos ou livros. Sua concentração se dispersava depois de duas ou três páginas. “Estou sempre tentando trazer minha mente de volta ao texto”, diz. O que antes fazia com prazer virou um martírio. “Não penso mais da maneira que costumava pensar”, lamenta. Carr está convicto de que não se trata de um problema pessoal. Ex-editor da Harvard Business Review, ele ouviu blo-gueiros e intelectuais que confessaram igual dificuldade para chegar até o último parágrafo de um livro.
O título do artigo – O Google está nos tornando estúpidos? – dá uma pista. Carr acredita que a internet transformou nossas mentes. Os meios de comunicação não são canais passivos de informação. “Eles fornecem o conteúdo de nossos pensamentos, mas também modelam o processo de pensamento”, diz Carr, citando o pensador canadense Marshall McLuhan. Resultado? Um internauta que salta de site em site condiciona a mente a receber informações de forma rápida e superficial. Os circuitos neuro-lógicos adaptam-se a essa nova realidade, afirma o escritor, baseado em pesquisas que mostram que o cérebro, mesmo o de adultos, é dotado de enorme plasticidade. “O cérebro consegue se reprogramar em pleno vôo, alterando a forma como funciona”, afirma o neurocientista James Olds, da George Mason University, em apoio aos argumentos de Carr.
Uma pesquisa recente da University College London confirma a dificuldade que as pessoas têm hoje de mergulhar em textos longos. O levantamento examinou, durante cinco anos, o comportamento dos visitantes de dois populares sites de pesquisa – da Biblioteca Britânica e de um consórcio de instituições de ensino – que dão acesso a jornais, e-books e outras fontes de informa-ção. Descobriram que os usuários exibem um comportamento ligeiro e inconstante. Lêem no máximo uma ou duas páginas de um artigo ou de um livro antes de trocar de site. Alguns arquivam textos longos, mas raramente voltam a consultá-los. “Fica evidente que os usuários não lêem no sentido tradicional”, dizem os autores do estudo. “É uma nova forma de leitura. Navegam por títulos, sumários e resumos de textos. Parece que estão online apenas para evitar uma leitura no sentido tradicional.”
A mesma superficialidade parece contaminar a academia, segundo estudo recente do sociólogo James Evans, da Universida-de de Chicago. Apesar de ter à sua disposição uma quantidade cada vez maior de versões online de publicações científicas, os pesquisadores tendem a pesquisar na internet um número reduzido de artigos – os mais comentados entre os colegas, ignorando todo o restante. “A pesquisa científica online acelera o consenso”, diz Evans. É um comportamento bem diferente daquele exibido por pesquisadores de outras eras, que gastavam um tempo enorme fuçando trabalhos em bibliotecas e que, pela própria natureza da consulta, esbarravam em trabalhos de diferentes campos do conhecimento, que, ao final, acabavam sendo citados nos seus estudos.
A repercussão do artigo de Carr foi imediata. Em seu blog, o escritor Evan Ratliff, colaborador da revista The New Yorker e do jornal The New York Times, disse que o uso incessante da internet provavelmente afeta também a nossa memória, uma vez que não temos mais a necessidade de lembrar daquilo que está facilmente à nossa disposição no universo virtual. O que não é, ne-cessariamente, negativo. São circuitos neurológicos que podem ser empregados em outras atividades.
Muitos apontam um pessimismo exagerado em Carr. O jornalista Kevin Kelly, editor da revista Wired, afirma em seu blog que, se o nosso desempenho intelectual cai quando estamos fora da rede, melhora quando estamos online. “Será que não ficamos mais idiotas quando estamos fora do Google, mas mais espertos quando estamos no Google? É muito provável que sim”, diz. Para Danny Hillis, escritor e consultor da IBM e da Hewlett-Packard, o autor de The Big Switch erra ao apontar o culpado. “O dilúvio que está nos afogando é o do excesso de informação”, afirma. Para ele, o Google e outros instrumentos da internet apenas nos ajudam a sobreviver em meio ao enorme fluxo de dados da sociedade contemporânea. (Revista ÉPOCA NEGÓCIOS, out/2008, pg.120-121)
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quinta-feira, 14 de outubro de 2010
RUBEM ALVES x UNAMUNO Aperitivos...
RUBEM ALVES x UNAMUNO
Aperitivos...
Eu era jovem quando li pela primeira vez o livro Do sentimento Trágico da Vida, de D. Miguel de Unamuno. É um livro que foi escrito com sangue. Por isso ele deixou marcas no meu corpo. Falando sobre os filósofos Guimarães Rosa disse que eles são os assassinos da língua com duas exceções: Soeren Kierkegaard e Miguel de Unamuno... Vão abaixo, para serem degustados, alguns aperitivos do seu pensamento.
Toda religião provém historicamente, do culto aos mortos, isto é, da esperança da imortalidade.
O que existe de mais sagrado num templo é o fato de ser o lugar aonde se vai chorar em comum. Um Miserere cantado em coro por uma multidão açoitada pelo destino vale tanto quanto uma filosofia.
O que distingue o homem dos outros animais é o fato de ele guardar, de um modo ou de outro, os seus mortos.
As casas dos mortos — as dos mortos e não as dos vivos — pela sua solidez venceram os séculos: as moradias permanentes, não as estalagens.
Acreditar em Deus é, antes de mais nada e principalmente, querer que ele exista.
Se a mortalidade da alma é terrível, a sua imortalidade não o é menos.
Mais vezes tenho visto um gato a raciocinar do que a rir ou a chorar. Talvez chore por dentro, mas também, por dentro, talvez o caranguejo resolva equações do segundo grau.
Por mais de uma vez se tem dito que todo o homem desgraçado prefere ser quem é, ainda mesmo com as suas desgraças, a ser outrem, sem elas.
As pessoas que só pensam com o cérebro tornam-se definidores, fazem-se profissionais do pensamento.
Todo conhecimento tem uma finalidade. Saber por saber, por mais que se diga o contrário, não passa de lamentável petição de princípio.
O conhecimento está a serviço da necessidade de viver, ao serviço do instinto de conservação pessoa. O homem vê, ouve, apalpa, saboreia e cheira aquilo que precisa de ver, ouvir, apalpar, saborear ou cheirar para conservar a sua vida.
Pelo que me diz respeito, jamais de bom grado me entregarei, nem outorgarei a minha confiança a um condutor de povos que não esteja penetrado da idéia de que, ao conduzir um povo, conduz homens, homens de carne e osso, homens que nascem, sofrem e ainda que não queiram morrer, morrem; homens que são fins em si mesmos e não meios...
Podemos ter um grande talento e sermos estúpidos de sentimentos e moralmente imbecis.
A curiosidade brotou da necessidade de conhecer para viver.
Pensar é falarmos conosco. O pensamento é linguagem interior.
A bondade é a melhor fonte de clarividência espiritual
Saber por saber! A verdade pela verdade! Isso não é humano!
Não existe um só que, chegando a distinguir o verdadeiro do falso, não prefira a mentira que ele encontrou à verdade que outrem descobriu.
O homem prefere prolongar-se no tempo a prolongar-se no espaço. Mais vale durar para sempre num recanto do que brilhar um segundo em todo o universo.
O catolicismo produziu heróis e o protestantismo sociedades sensatas, felizes, ricas...
Coisa terrível a inteligência. Tende à morte, como a memória à estabilidade. O vivo, aquilo que é absolutamente instável, o absolutamente individual é, rigorosamente falando, ininteligível.
A ciência é um cemitério de idéias mortas, ainda que delas saia a vida. Também os vermes se alimentam de cadáveres. Os meus próprios pensamentos, uma vez arrancados das suas raizes no coração, transportados para esse papel, são já cadáveres de pensamentos.
O amor é o que há de mais trágico no mundo e na vida. O amor é filho da ilusão e pai da desilusão. É a consolação na desolação. O único remédio para a morte da qual ele é irmão.
O amor busca com furor, através do objeto amado, alguma coisa que está para além dele. E como não a encontra se desespera.Só podemos conhecer bem aquilo que amamos e de que tenhamos tido compaixão.
Giambatista Vico, com sua profunda penetração estética, viu na alma da antiguidade que a filosofia espontânea do homem era fazer-se regra do universo, guiado pelo Instinto d’Animazione.
Talvez que a imensa Via Lactea, por nós contemplada nas noites claras, esse enorme anel do qual o nosso sistema planetário não é mais do que uma molécula, não seja, por sua vez, mais do que uma célula do Universo do Corpo de Deus.
Criamos Deus para salvar do nada o Universo.
Atrevo-me a dizer que o verme que ama no seu torrão seria mais divino que um Deus sem amor entre os seus mundos. (Roberto Browning)
A eterna religião das entranhas do homem, o sonho individual do coração, é o culto do seu ser, a adoração da vida. (Flaubert)
Não foi condenação dos antigos deuses e dos demônios o não poderem suicidar-se?
Não será toda a vida um sonho e a morte um despertar?
A bondade é a melhor fonte de clarividência espiritual.
Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1605432&area=2220&authent=172047542551221702477625732235 - Jornal Correio Popular, Campinas, 09/11/2008
Aperitivos...
Eu era jovem quando li pela primeira vez o livro Do sentimento Trágico da Vida, de D. Miguel de Unamuno. É um livro que foi escrito com sangue. Por isso ele deixou marcas no meu corpo. Falando sobre os filósofos Guimarães Rosa disse que eles são os assassinos da língua com duas exceções: Soeren Kierkegaard e Miguel de Unamuno... Vão abaixo, para serem degustados, alguns aperitivos do seu pensamento.
Toda religião provém historicamente, do culto aos mortos, isto é, da esperança da imortalidade.
O que existe de mais sagrado num templo é o fato de ser o lugar aonde se vai chorar em comum. Um Miserere cantado em coro por uma multidão açoitada pelo destino vale tanto quanto uma filosofia.
O que distingue o homem dos outros animais é o fato de ele guardar, de um modo ou de outro, os seus mortos.
As casas dos mortos — as dos mortos e não as dos vivos — pela sua solidez venceram os séculos: as moradias permanentes, não as estalagens.
Acreditar em Deus é, antes de mais nada e principalmente, querer que ele exista.
Se a mortalidade da alma é terrível, a sua imortalidade não o é menos.
Mais vezes tenho visto um gato a raciocinar do que a rir ou a chorar. Talvez chore por dentro, mas também, por dentro, talvez o caranguejo resolva equações do segundo grau.
Por mais de uma vez se tem dito que todo o homem desgraçado prefere ser quem é, ainda mesmo com as suas desgraças, a ser outrem, sem elas.
As pessoas que só pensam com o cérebro tornam-se definidores, fazem-se profissionais do pensamento.
Todo conhecimento tem uma finalidade. Saber por saber, por mais que se diga o contrário, não passa de lamentável petição de princípio.
O conhecimento está a serviço da necessidade de viver, ao serviço do instinto de conservação pessoa. O homem vê, ouve, apalpa, saboreia e cheira aquilo que precisa de ver, ouvir, apalpar, saborear ou cheirar para conservar a sua vida.
Pelo que me diz respeito, jamais de bom grado me entregarei, nem outorgarei a minha confiança a um condutor de povos que não esteja penetrado da idéia de que, ao conduzir um povo, conduz homens, homens de carne e osso, homens que nascem, sofrem e ainda que não queiram morrer, morrem; homens que são fins em si mesmos e não meios...
Podemos ter um grande talento e sermos estúpidos de sentimentos e moralmente imbecis.
A curiosidade brotou da necessidade de conhecer para viver.
Pensar é falarmos conosco. O pensamento é linguagem interior.
A bondade é a melhor fonte de clarividência espiritual
Saber por saber! A verdade pela verdade! Isso não é humano!
Não existe um só que, chegando a distinguir o verdadeiro do falso, não prefira a mentira que ele encontrou à verdade que outrem descobriu.
O homem prefere prolongar-se no tempo a prolongar-se no espaço. Mais vale durar para sempre num recanto do que brilhar um segundo em todo o universo.
O catolicismo produziu heróis e o protestantismo sociedades sensatas, felizes, ricas...
Coisa terrível a inteligência. Tende à morte, como a memória à estabilidade. O vivo, aquilo que é absolutamente instável, o absolutamente individual é, rigorosamente falando, ininteligível.
A ciência é um cemitério de idéias mortas, ainda que delas saia a vida. Também os vermes se alimentam de cadáveres. Os meus próprios pensamentos, uma vez arrancados das suas raizes no coração, transportados para esse papel, são já cadáveres de pensamentos.
O amor é o que há de mais trágico no mundo e na vida. O amor é filho da ilusão e pai da desilusão. É a consolação na desolação. O único remédio para a morte da qual ele é irmão.
O amor busca com furor, através do objeto amado, alguma coisa que está para além dele. E como não a encontra se desespera.Só podemos conhecer bem aquilo que amamos e de que tenhamos tido compaixão.
Giambatista Vico, com sua profunda penetração estética, viu na alma da antiguidade que a filosofia espontânea do homem era fazer-se regra do universo, guiado pelo Instinto d’Animazione.
Talvez que a imensa Via Lactea, por nós contemplada nas noites claras, esse enorme anel do qual o nosso sistema planetário não é mais do que uma molécula, não seja, por sua vez, mais do que uma célula do Universo do Corpo de Deus.
Criamos Deus para salvar do nada o Universo.
Atrevo-me a dizer que o verme que ama no seu torrão seria mais divino que um Deus sem amor entre os seus mundos. (Roberto Browning)
A eterna religião das entranhas do homem, o sonho individual do coração, é o culto do seu ser, a adoração da vida. (Flaubert)
Não foi condenação dos antigos deuses e dos demônios o não poderem suicidar-se?
Não será toda a vida um sonho e a morte um despertar?
A bondade é a melhor fonte de clarividência espiritual.
Rubem Alves é escritor, teólogo e educador
http://www.cpopular.com.br/mostra_noticia.asp?noticia=1605432&area=2220&authent=172047542551221702477625732235 - Jornal Correio Popular, Campinas, 09/11/2008
DECIFRANDO A "MENTE DE DEUS"
Marcelo Gleiser*
Por que sempre buscamos ver a natureza em ordem?
Somos amantes da regularidade.O que foge aos padrões da normalidade, o comportamento irregular, inesperado, incontrolável, é sempre visto com censura ou mesmo com medo. Isso é tanto verdade na sociedade quanto na natureza.
Quando os primeiros humanos olharam na direção dos céus, perceberam que existiam dois tipos de fenômenos. Os que se repetiam regularmente, como o ciclo das estações do ano, e os inesperados, como o aparecimento de cometas.
Reconhecer esses padrões regulares se fez necessário para a nossa sobrevivência como espécie. Se um caçador na floresta via algo que fugia ao normal, logo ficava alerta. Podia ser um predador, um inimigo ou, com sorte, comida. Evoluímos com a capacidade mental de reconhecer padrões.
A matemática nada mais é do que a linguagem que criamos para descrever esses padrões. Na geometria, descrevemos os padrões espaciais, as formas da natureza e as suas simetrias.
Na aritmética e na álgebra, lidamos com padrões entre números e suas relações. Quando Pitágoras criou sua seita no sul da Itália, em torno de 600 a.C., seu objetivo místico-filosófico era a compreensão dos padrões da natureza através da matemática.
Para os pitagóricos, tudo era número. A essência do conhecimento começava com a matemática e terminava na descrição da mente do "criador" -da sua criação- como um elaborado mosaico de padrões. O filósofo era quem se dedicava a esses estudos, uma espécie de matemático-sacerdote. É natural supor que, com o desenvolvimento da ciência, essas idéias tenham caído em desuso.
Afinal, nenhum matemático ou físico moderno -ou quase nenhum- se diz um místico em busca de desvendar os segredos matemáticos da mente de Deus. Porém, é talvez surpreendente o quanto essa metáfora ainda é usada, o "desvendar a mente de Deus" como sendo o objetivo final da ciência. Um exemplo recente é o de Stephen Hawking em seu livro "Uma Breve História da Tempo". Como o dele, existem vários outros. Por que isso?
A história é longa demais para uma coluna (estou escrevendo um livro sobre o assunto), mas podemos começar a partir de Kepler. No início de século XVII, ele tentou criar um modelo geométrico do cosmo usando os cinco sólidos platônicos (o cubo e a pirâmide são dois deles).
A idéia, meio genial e meio louca, era realizar o sonho pitagórico, obter o padrão geométrico da criação. Pulando para Einstein, sua teoria da relatividade foi o próximo grande passo.
Claro, o modelo de Kepler estava errado e a teoria de Einstein funciona muito bem.
Einstein, influenciado por Spinoza que, por sua vez, foi influenciado por Platão que, por sua vez, foi influenciado por Pitágoras, queria obter uma descrição geométrica do mundo, que ele atribuía à uma inteligência abstrata. Não o Deus judaico-cristão, com certeza. Mas a racionalidade que via manifesta nos padrões do mundo à nossa volta.
Einstein passou as últimas duas décadas de sua vida buscando por uma teoria unificada das forças gravitacional e eletromagnética.
Para ele, essa unificação era inevitável, a expressão mais cristalina da inteligência da natureza. Einstein falhou em sua empreitada, mas outros continuam buscando por essa unificação geométrica, a versão científica da "mente de Deus".
A falta de resultados experimentais indicando a direção certa dificulta muito as coisas. Ou, talvez a natureza esteja tentando nos dizer algo: a ordem que tanto buscamos nela é, na verdade, a ordem que buscamos em nossas vidas.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe3011200803.htm
Por que sempre buscamos ver a natureza em ordem?
Somos amantes da regularidade.O que foge aos padrões da normalidade, o comportamento irregular, inesperado, incontrolável, é sempre visto com censura ou mesmo com medo. Isso é tanto verdade na sociedade quanto na natureza.
Quando os primeiros humanos olharam na direção dos céus, perceberam que existiam dois tipos de fenômenos. Os que se repetiam regularmente, como o ciclo das estações do ano, e os inesperados, como o aparecimento de cometas.
Reconhecer esses padrões regulares se fez necessário para a nossa sobrevivência como espécie. Se um caçador na floresta via algo que fugia ao normal, logo ficava alerta. Podia ser um predador, um inimigo ou, com sorte, comida. Evoluímos com a capacidade mental de reconhecer padrões.
A matemática nada mais é do que a linguagem que criamos para descrever esses padrões. Na geometria, descrevemos os padrões espaciais, as formas da natureza e as suas simetrias.
Na aritmética e na álgebra, lidamos com padrões entre números e suas relações. Quando Pitágoras criou sua seita no sul da Itália, em torno de 600 a.C., seu objetivo místico-filosófico era a compreensão dos padrões da natureza através da matemática.
Para os pitagóricos, tudo era número. A essência do conhecimento começava com a matemática e terminava na descrição da mente do "criador" -da sua criação- como um elaborado mosaico de padrões. O filósofo era quem se dedicava a esses estudos, uma espécie de matemático-sacerdote. É natural supor que, com o desenvolvimento da ciência, essas idéias tenham caído em desuso.
Afinal, nenhum matemático ou físico moderno -ou quase nenhum- se diz um místico em busca de desvendar os segredos matemáticos da mente de Deus. Porém, é talvez surpreendente o quanto essa metáfora ainda é usada, o "desvendar a mente de Deus" como sendo o objetivo final da ciência. Um exemplo recente é o de Stephen Hawking em seu livro "Uma Breve História da Tempo". Como o dele, existem vários outros. Por que isso?
A história é longa demais para uma coluna (estou escrevendo um livro sobre o assunto), mas podemos começar a partir de Kepler. No início de século XVII, ele tentou criar um modelo geométrico do cosmo usando os cinco sólidos platônicos (o cubo e a pirâmide são dois deles).
A idéia, meio genial e meio louca, era realizar o sonho pitagórico, obter o padrão geométrico da criação. Pulando para Einstein, sua teoria da relatividade foi o próximo grande passo.
Claro, o modelo de Kepler estava errado e a teoria de Einstein funciona muito bem.
Einstein, influenciado por Spinoza que, por sua vez, foi influenciado por Platão que, por sua vez, foi influenciado por Pitágoras, queria obter uma descrição geométrica do mundo, que ele atribuía à uma inteligência abstrata. Não o Deus judaico-cristão, com certeza. Mas a racionalidade que via manifesta nos padrões do mundo à nossa volta.
Einstein passou as últimas duas décadas de sua vida buscando por uma teoria unificada das forças gravitacional e eletromagnética.
Para ele, essa unificação era inevitável, a expressão mais cristalina da inteligência da natureza. Einstein falhou em sua empreitada, mas outros continuam buscando por essa unificação geométrica, a versão científica da "mente de Deus".
A falta de resultados experimentais indicando a direção certa dificulta muito as coisas. Ou, talvez a natureza esteja tentando nos dizer algo: a ordem que tanto buscamos nela é, na verdade, a ordem que buscamos em nossas vidas.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo"
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe3011200803.htm
OS PESSIMISTAS
Os pessimistas me aborrecem.
Fazem, como dizia Oduvaldo Viana Filho,
“do medo de viver um espetáculo de coragem”.
Vivem de mal com a vida. Estão sempre em posição de combate.
Não olham para frente.
São homens e mulheres de retrovisor.
À semelhança de Quixote, vivem lutando contra moinhos de vento.
Falta-lhes equilíbrio, serenidade e bom senso.
(Jornal Correio Popular, Campinas, SP, 30/11/2008 - Carlos Alberto Di Franco in: Hambúrguer vesus qualidade).
Fazem, como dizia Oduvaldo Viana Filho,
“do medo de viver um espetáculo de coragem”.
Vivem de mal com a vida. Estão sempre em posição de combate.
Não olham para frente.
São homens e mulheres de retrovisor.
À semelhança de Quixote, vivem lutando contra moinhos de vento.
Falta-lhes equilíbrio, serenidade e bom senso.
(Jornal Correio Popular, Campinas, SP, 30/11/2008 - Carlos Alberto Di Franco in: Hambúrguer vesus qualidade).
Saramago, Rubem e a festa na Terra Manter a calma
Mauro Santayana
De todos os excepcionais textos de Rubem Braga, cuja leveza embalava as coisas sérias, o mais instigante é o que descreve uma grande festa na Terra, para a qual todos os seres humanos haviam sido convidados. Como era de seu hábito e de seu talento, Rubem excitava a imaginação e as reflexões do leitor: seria aquela a primeira ou a última festa na Terra? Era festa admirável, em que todos se divertiam, felizes; tratavam-se com afeto de irmãos e os casais de enamorados não escondiam sua ternura especial.
Não nos damos conta de que fomos convidados para a grande festa da vida, a grande festa na Terra. Qualquer manual de etiqueta registra o que fazer nesses encontros. Moderar na bebida e na comida. Tratar bem os presentes, ser amável ao máximo, ouvir mais do que falar, fugir do pedantismo, cuidar de coisas graves com os interlocutores certos, e das banalidades usuais com os outros.
A visita de Saramago ao Brasil e suas reflexões sobre a seca atualidade conduzem a Rubem, também pelo fato de ele ter sido dos melhores escritores em nossa língua comum. Saramago acerta, quando diz que não há direitos humanos. Não os há: quando são reconhecidos, não são respeitados. Ao dizer que não é pessimista, mas que o mundo ficou péssimo, o autor volta às verdades que, de serem simples, são esquecidas. Ninguém se preocupa em ser bom. "Bondade" escapou do vocabulário, assim como até mesmo a palavra "corrupção" se corrompeu pela banalidade, perdendo seu sentido grave, para designar comportamento assimilável pela tolerância geral. E de vocábulo em vocábulo corroídos, desfaz-se a linguagem em nova babel. Assim, os banqueiros de Wall Street são "ousados" quando roubam, e os empresários, "prudentes", quando demitem em massa. Novo idioma foi criado, a partir da mutilação semântica, a fim de esconder a verdade.
O sistema econômico moderno criou novo tipo de corporativismo, bem diferente daquelas associações profissionais da Idade Média, que zelavam pela preparação dos aprendizes , pela técnica dos artesãos e pela solidariedade para com os necessitados. O novo corporativismo – que serviu de cimento ao fascismo – se destaca pelo egoísmo dos grupos. As pessoas não se aproximam mais pela vizinhança e pela amizade ocasional mas, sim, pelo pobre interesse de sua pequena grei profissional. No mês passado, um homem de 47 anos, pai de família, desempregado e doente, subiu ao último andar de um posto de perícias médicas em São Paulo, ameaçando matar-se, se não recebesse o benefício a que, em seu entender, tinha direito. O fato em si é vulgar, quase rotineiro, perdeu o interesse dos grandes jornais. Mas a Associação Nacional dos Peritos Médicos, em nota divulgada por sua assessoria de imprensa, acusou-o de atrasar o início do atendimento ao público por mais de uma hora. Há algum tempo, esses peritos médicos reivindicavam aumento com o argumento de que haviam economizado bom dinheiro à Previdência, com seus laudos. É certo – e já foram identificadas algumas – que há quadrilhas montadas para fraudar a Previdência, mas um trabalhador, isolado, que reclama, não pode ser visto como criminoso. Todas as corporações – entre elas, a dos jornalistas – aferram-se a seus privilégios, muitos obtidos mediante pressão política. E como todo privilégio traz, como contrapartida, alguma injustiça, o sentimento de solidariedade da espécie se esfaz, sobretudo nos grandes centros urbanos. Há algumas décadas os pobres tinham direito à solidariedade.
Não são poucos os pensadores – e o teólogo Leonardo Boff tem tratado algumas vezes do tema – que nos indicam como a crise atual poderá nos despertar da letargia. Teremos que reconstruir a sociedade dos homens a partir da constatação de que somos todos rigorosamente iguais.
Os chilenos fizeram bem em desdenhar a fanfarronada do general Donayre, comandante-geral do Exército do Peru, que, em festa descontraída, ameaçou matar os chilenos que entrassem no Peru. Entre 1879 e 1883 houve guerra entre o Chile, o Peru e a Bolívia – estimulada por interesses europeus no salitre e no guano do Pacífico – que os chilenos ganharam, depois de ocupar Lima (em 1881). Os peruanos perderam a província de Tarapacá e grande parte do deserto de Atacama e, os bolivianos, a região de Antofagasta. Recentemente, o governo peruano levou a questão ao Tribunal de Haia. Nada pior do que reabrir feridas cicatrizadas, quando o continente busca a integração.
http://ee.jornaldobrasil.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117599/99682 27/11/2008
De todos os excepcionais textos de Rubem Braga, cuja leveza embalava as coisas sérias, o mais instigante é o que descreve uma grande festa na Terra, para a qual todos os seres humanos haviam sido convidados. Como era de seu hábito e de seu talento, Rubem excitava a imaginação e as reflexões do leitor: seria aquela a primeira ou a última festa na Terra? Era festa admirável, em que todos se divertiam, felizes; tratavam-se com afeto de irmãos e os casais de enamorados não escondiam sua ternura especial.
Não nos damos conta de que fomos convidados para a grande festa da vida, a grande festa na Terra. Qualquer manual de etiqueta registra o que fazer nesses encontros. Moderar na bebida e na comida. Tratar bem os presentes, ser amável ao máximo, ouvir mais do que falar, fugir do pedantismo, cuidar de coisas graves com os interlocutores certos, e das banalidades usuais com os outros.
A visita de Saramago ao Brasil e suas reflexões sobre a seca atualidade conduzem a Rubem, também pelo fato de ele ter sido dos melhores escritores em nossa língua comum. Saramago acerta, quando diz que não há direitos humanos. Não os há: quando são reconhecidos, não são respeitados. Ao dizer que não é pessimista, mas que o mundo ficou péssimo, o autor volta às verdades que, de serem simples, são esquecidas. Ninguém se preocupa em ser bom. "Bondade" escapou do vocabulário, assim como até mesmo a palavra "corrupção" se corrompeu pela banalidade, perdendo seu sentido grave, para designar comportamento assimilável pela tolerância geral. E de vocábulo em vocábulo corroídos, desfaz-se a linguagem em nova babel. Assim, os banqueiros de Wall Street são "ousados" quando roubam, e os empresários, "prudentes", quando demitem em massa. Novo idioma foi criado, a partir da mutilação semântica, a fim de esconder a verdade.
O sistema econômico moderno criou novo tipo de corporativismo, bem diferente daquelas associações profissionais da Idade Média, que zelavam pela preparação dos aprendizes , pela técnica dos artesãos e pela solidariedade para com os necessitados. O novo corporativismo – que serviu de cimento ao fascismo – se destaca pelo egoísmo dos grupos. As pessoas não se aproximam mais pela vizinhança e pela amizade ocasional mas, sim, pelo pobre interesse de sua pequena grei profissional. No mês passado, um homem de 47 anos, pai de família, desempregado e doente, subiu ao último andar de um posto de perícias médicas em São Paulo, ameaçando matar-se, se não recebesse o benefício a que, em seu entender, tinha direito. O fato em si é vulgar, quase rotineiro, perdeu o interesse dos grandes jornais. Mas a Associação Nacional dos Peritos Médicos, em nota divulgada por sua assessoria de imprensa, acusou-o de atrasar o início do atendimento ao público por mais de uma hora. Há algum tempo, esses peritos médicos reivindicavam aumento com o argumento de que haviam economizado bom dinheiro à Previdência, com seus laudos. É certo – e já foram identificadas algumas – que há quadrilhas montadas para fraudar a Previdência, mas um trabalhador, isolado, que reclama, não pode ser visto como criminoso. Todas as corporações – entre elas, a dos jornalistas – aferram-se a seus privilégios, muitos obtidos mediante pressão política. E como todo privilégio traz, como contrapartida, alguma injustiça, o sentimento de solidariedade da espécie se esfaz, sobretudo nos grandes centros urbanos. Há algumas décadas os pobres tinham direito à solidariedade.
Não são poucos os pensadores – e o teólogo Leonardo Boff tem tratado algumas vezes do tema – que nos indicam como a crise atual poderá nos despertar da letargia. Teremos que reconstruir a sociedade dos homens a partir da constatação de que somos todos rigorosamente iguais.
Os chilenos fizeram bem em desdenhar a fanfarronada do general Donayre, comandante-geral do Exército do Peru, que, em festa descontraída, ameaçou matar os chilenos que entrassem no Peru. Entre 1879 e 1883 houve guerra entre o Chile, o Peru e a Bolívia – estimulada por interesses europeus no salitre e no guano do Pacífico – que os chilenos ganharam, depois de ocupar Lima (em 1881). Os peruanos perderam a província de Tarapacá e grande parte do deserto de Atacama e, os bolivianos, a região de Antofagasta. Recentemente, o governo peruano levou a questão ao Tribunal de Haia. Nada pior do que reabrir feridas cicatrizadas, quando o continente busca a integração.
http://ee.jornaldobrasil.com.br/reader/clipatexto.asp?pg=jornaldobrasil_117599/99682 27/11/2008
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Sociedade da saciedade e da infelicidade
J. B. Libanio *
Adital -
Inúmeros paradoxos atravessam a vida humana. Sem eles, nossa humanidade não manifestaria riqueza e complexidade. Uma existência plana, retilínea, sem sobressaltos refletiria antes nossa condição animal que espiritual. A base última de nossos paradoxos funda-se na bipolaridade de finitude e desejos infinitos, de instintos voltados para o particular do prazer imediato e razão feita para o universal, da origem animal e obra de um Criador infinito e todo amor marcando-nos com o sinete divino.
A sociedade do mercado disputa esse ser humano. Acena-lhe com a promessa, nunca realizável, de saciar-lhe a inquietude infinita, atulhando-o de bens. Cada dia se anuncia um avanço na direção da sociedade da plena saciedade. Os bens materiais se multiplicam e se sofisticam, estendendo os braços para número cada vez maior de favorecidos.
Nada soa tão estranho como a carência, a insuficiência, a incompletude. Tal frenesi vai além do campo da pura posse e fruição de bens materiais. Cada tipo de produção, cada instituição, cada segmento da vida humana se arvora em autossuficiente, completo em si mesmo, sem precisar de remate de outro campo.
No mundo acadêmico se fortalece tal espírito de completude disciplinar. Cada saber cria poderoso muro de proteção em relação a qualquer possível intromissão de fora. A comunidade de especialistas desse campo desconhece soberanamente toda palavra vinda de outro lugar humano por julgá-la incompetente e intrusa num espaço fechado e pleno. E, sobretudo que ela não venha da metafísica, que por natureza transgride todos os conceitos e saberes para ir até a raiz última do ser e a partir daí entender o humano.
A ética também não é bem vista. Rege-se por valores que parecem vagos, sem a precisão das pesquisas empíricas, verificáveis, matematizáveis, biologizáveis. Muito menos ainda que a teologia não se intrometa nesse mundo. Lá no século XVII, Galileu já forjara a axiomática afirmação de que a fé cuida de como se vai ao céu, enquanto as ciências tratam de como vai o céu.
E quando, apesar de toda a saciedade intelectual e material que a sociedade promete e julga realizar, o ser humano ainda não conseguir aquietar sua inquietude interior, que fazer? Então vem a depressão.
As estatísticas, talvez exageradas, nos escancaram a realidade dos deprimidos na ordem do bilhão. Quando todos os poros do sensível e da pretensão humana do saber se tapam, parece então que rasgam no seu interior outros tecidos profundos. Explode o paradoxo da insatisfação na saciedade. Qualquer um que esbarrou com Santo Agostinho, inquieto pensador cristão do V século, recorda-se do grito: "Inquieto está meu coração, Senhor, até que descanse em ti!" Nenhum dos descansos criados por nós é Deus. E quando Ele é calado, nalgum lugar explode a angústia humana. Muitos têm lançado mão da química euforizante. Seu efeito, porém, não dura eternamente. E agora, José?
[Confira também de JBLibanio o livro: Em busca de Lucidez. O fiel da balança. São Paulo, Loyola, 2008. www.jblibanio.com.br].
* Padre jesuíta, escritor e teólogo. Ensina na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e é vice-pároco em Vespasiano
Adital -
Inúmeros paradoxos atravessam a vida humana. Sem eles, nossa humanidade não manifestaria riqueza e complexidade. Uma existência plana, retilínea, sem sobressaltos refletiria antes nossa condição animal que espiritual. A base última de nossos paradoxos funda-se na bipolaridade de finitude e desejos infinitos, de instintos voltados para o particular do prazer imediato e razão feita para o universal, da origem animal e obra de um Criador infinito e todo amor marcando-nos com o sinete divino.
A sociedade do mercado disputa esse ser humano. Acena-lhe com a promessa, nunca realizável, de saciar-lhe a inquietude infinita, atulhando-o de bens. Cada dia se anuncia um avanço na direção da sociedade da plena saciedade. Os bens materiais se multiplicam e se sofisticam, estendendo os braços para número cada vez maior de favorecidos.
Nada soa tão estranho como a carência, a insuficiência, a incompletude. Tal frenesi vai além do campo da pura posse e fruição de bens materiais. Cada tipo de produção, cada instituição, cada segmento da vida humana se arvora em autossuficiente, completo em si mesmo, sem precisar de remate de outro campo.
No mundo acadêmico se fortalece tal espírito de completude disciplinar. Cada saber cria poderoso muro de proteção em relação a qualquer possível intromissão de fora. A comunidade de especialistas desse campo desconhece soberanamente toda palavra vinda de outro lugar humano por julgá-la incompetente e intrusa num espaço fechado e pleno. E, sobretudo que ela não venha da metafísica, que por natureza transgride todos os conceitos e saberes para ir até a raiz última do ser e a partir daí entender o humano.
A ética também não é bem vista. Rege-se por valores que parecem vagos, sem a precisão das pesquisas empíricas, verificáveis, matematizáveis, biologizáveis. Muito menos ainda que a teologia não se intrometa nesse mundo. Lá no século XVII, Galileu já forjara a axiomática afirmação de que a fé cuida de como se vai ao céu, enquanto as ciências tratam de como vai o céu.
E quando, apesar de toda a saciedade intelectual e material que a sociedade promete e julga realizar, o ser humano ainda não conseguir aquietar sua inquietude interior, que fazer? Então vem a depressão.
As estatísticas, talvez exageradas, nos escancaram a realidade dos deprimidos na ordem do bilhão. Quando todos os poros do sensível e da pretensão humana do saber se tapam, parece então que rasgam no seu interior outros tecidos profundos. Explode o paradoxo da insatisfação na saciedade. Qualquer um que esbarrou com Santo Agostinho, inquieto pensador cristão do V século, recorda-se do grito: "Inquieto está meu coração, Senhor, até que descanse em ti!" Nenhum dos descansos criados por nós é Deus. E quando Ele é calado, nalgum lugar explode a angústia humana. Muitos têm lançado mão da química euforizante. Seu efeito, porém, não dura eternamente. E agora, José?
[Confira também de JBLibanio o livro: Em busca de Lucidez. O fiel da balança. São Paulo, Loyola, 2008. www.jblibanio.com.br].
* Padre jesuíta, escritor e teólogo. Ensina na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), em Belo Horizonte, e é vice-pároco em Vespasiano
Eleição, aborto e a infantilização da religião
Jung Mo Sung *
Adital -
Por que bispos, padres e grupo religiosos que sempre defenderam a separação radical entre a religião e política, que sempre criticaram a discussão política no âmbito da Igreja ou até mesmo a relação "fé e política", estão fazendo, até mesmo nas missas, campanha aberta contra Dilma?
Uma primeira resposta poderia ser: hipocrisia. Respostas moralistas podem satisfazer o "juiz moralista" que todos nós carregamos no mais profundo do nosso ser, mas não são boas para nos ajudar a entender o que está acontecendo.
Esta campanha contra a candidatura da Dilma, e com isso o apoio explícito ou implícito à candidatura do Serra, está sendo feita de várias formas, mas com um elemento comum: os católicos e os "crentes" não devem votar nela porque ela seria a favor do aborto e, por isso, contra a vida. Alguns agregam também a acusação de que, se ela for eleita, as TVs católicas e evangélicas seriam proibidas de veicular os programas religiosos ou obrigadas a diminuir o seu tempo de duração. É a velha acusação de que "comunistas" são contra a religião.
Essas duas acusações são expressas e justificadas através de lógicas religiosas, e não a partir da "racionalidade leiga" que deve caracterizar a discussão sobre a política hoje. Esses grupos não admitem a distinção entre a religião e a política, ou melhor, não admitem a "autonomia relativa" do campo político e de outros campos -como o econômico- que se emanciparam da esfera religiosa no mundo moderno. Por isso, eram e são contra "fé e política" ou o debate sobre a política no campo religioso, pois esses debates são feitos normalmente a partir do princípio da autonomia relativa da política. Isto é, a discussão sobre questões políticas são feitas com argumentos de racionalidade sócio-política e não submetidos ao discurso meramente religioso.
Para esses grupos (é preciso reconhecer que ocorre também em outros grupos político-religiosos), os valores religiosos (do seu grupo) devem ser aplicados diretamente a todos os campos da vida pessoal e social. E, em casos graves como aborto, ser impostos sobre toda a sociedade através das leis do Estado. Nesses casos, não seria misturar a religião com a política, mas seria a "defesa" dos mandamentos e valores religiosos; ou colocar a política a serviço dos valores religiosos (nessa discussão apresentados como "a serviço da vida"). Pois, nada estaria acima dos "mandamentos de Deus". Desta forma não se reconhece a autonomia relativa do campo político, a dificuldade de se passar do princípio ético abstrato (do tipo "defenda a vida") para as políticas sociais concretas, e muito menos se aceita a pluralidade de religiões com valores diversos e propostas de ação divergentes e conflitantes.
Esta é a razão pela qual esses grupos não entendem e nem aceitam a resposta dada por Dilma de que ela, pessoalmente, é contra o aborto, mas que ela vai tratar esse tema como um problema de saúde pública. Para ouvidos daqueles que crêem que não há ou não deve haver separação entre a saúde pública (o campo da política social) e a opção religiosa pessoal do governante, a resposta da Dilma soa como eu não sou contra o aborto, que logo é traduzido na sua mente como "eu sou a favor do aborto".
E se ela é a favor do aborto, ela é contra a vida e, portanto, ela é do "mal". Enquanto que, por oposição, o outro candidato seria do "bem".
Reduzir toda a complexidade da "defesa da vida" -a que um/a presidente deve estar comprometido/a- à manutenção da criminalização do aborto (que é o que está discutido de fato neste debate sobre ser a favor ou contra o aborto) é uma simplificação mais do que exagerada. Simplificação que deixa fora do debate, por ex., toda a discussão sobre políticas econômicas e sociais que afetam a vida e a morte de milhões de pessoas. Mas é compreensível quando os cristãos têm muita dificuldade em perceber quais são os caminhos concretos e possíveis para viver a sua fé na sociedade, perceber em que a sua fé pode fazer diferença na vida social. Diante de tanta complexidade, a tentação mais fácil é simplificar o máximo para separar "os do bem" de "os do mal".
Essa simplificação me lembra a pergunta que os meus filhos, quando muito pequenos, me faziam ao assistir um filme: "pai, ele é do bem?" Se sim, eles torciam por aquele que "é do bem" contra o "do mal". Essa necessidade de separar os do bem e os do mal faz parte da condição mais primária do ser humano. O problema é que reduzir toda a complexidade da luta em favor da vida ao tema de ser favor ou contra a manutenção da criminalização do aborto é infantilizar a discussão política e, o que é pior, é infantilizar a própria religião que professa.
[Autor, em co-autoria com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece na luta em favor dos pobres"].
* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo
Adital -
Por que bispos, padres e grupo religiosos que sempre defenderam a separação radical entre a religião e política, que sempre criticaram a discussão política no âmbito da Igreja ou até mesmo a relação "fé e política", estão fazendo, até mesmo nas missas, campanha aberta contra Dilma?
Uma primeira resposta poderia ser: hipocrisia. Respostas moralistas podem satisfazer o "juiz moralista" que todos nós carregamos no mais profundo do nosso ser, mas não são boas para nos ajudar a entender o que está acontecendo.
Esta campanha contra a candidatura da Dilma, e com isso o apoio explícito ou implícito à candidatura do Serra, está sendo feita de várias formas, mas com um elemento comum: os católicos e os "crentes" não devem votar nela porque ela seria a favor do aborto e, por isso, contra a vida. Alguns agregam também a acusação de que, se ela for eleita, as TVs católicas e evangélicas seriam proibidas de veicular os programas religiosos ou obrigadas a diminuir o seu tempo de duração. É a velha acusação de que "comunistas" são contra a religião.
Essas duas acusações são expressas e justificadas através de lógicas religiosas, e não a partir da "racionalidade leiga" que deve caracterizar a discussão sobre a política hoje. Esses grupos não admitem a distinção entre a religião e a política, ou melhor, não admitem a "autonomia relativa" do campo político e de outros campos -como o econômico- que se emanciparam da esfera religiosa no mundo moderno. Por isso, eram e são contra "fé e política" ou o debate sobre a política no campo religioso, pois esses debates são feitos normalmente a partir do princípio da autonomia relativa da política. Isto é, a discussão sobre questões políticas são feitas com argumentos de racionalidade sócio-política e não submetidos ao discurso meramente religioso.
Para esses grupos (é preciso reconhecer que ocorre também em outros grupos político-religiosos), os valores religiosos (do seu grupo) devem ser aplicados diretamente a todos os campos da vida pessoal e social. E, em casos graves como aborto, ser impostos sobre toda a sociedade através das leis do Estado. Nesses casos, não seria misturar a religião com a política, mas seria a "defesa" dos mandamentos e valores religiosos; ou colocar a política a serviço dos valores religiosos (nessa discussão apresentados como "a serviço da vida"). Pois, nada estaria acima dos "mandamentos de Deus". Desta forma não se reconhece a autonomia relativa do campo político, a dificuldade de se passar do princípio ético abstrato (do tipo "defenda a vida") para as políticas sociais concretas, e muito menos se aceita a pluralidade de religiões com valores diversos e propostas de ação divergentes e conflitantes.
Esta é a razão pela qual esses grupos não entendem e nem aceitam a resposta dada por Dilma de que ela, pessoalmente, é contra o aborto, mas que ela vai tratar esse tema como um problema de saúde pública. Para ouvidos daqueles que crêem que não há ou não deve haver separação entre a saúde pública (o campo da política social) e a opção religiosa pessoal do governante, a resposta da Dilma soa como eu não sou contra o aborto, que logo é traduzido na sua mente como "eu sou a favor do aborto".
E se ela é a favor do aborto, ela é contra a vida e, portanto, ela é do "mal". Enquanto que, por oposição, o outro candidato seria do "bem".
Reduzir toda a complexidade da "defesa da vida" -a que um/a presidente deve estar comprometido/a- à manutenção da criminalização do aborto (que é o que está discutido de fato neste debate sobre ser a favor ou contra o aborto) é uma simplificação mais do que exagerada. Simplificação que deixa fora do debate, por ex., toda a discussão sobre políticas econômicas e sociais que afetam a vida e a morte de milhões de pessoas. Mas é compreensível quando os cristãos têm muita dificuldade em perceber quais são os caminhos concretos e possíveis para viver a sua fé na sociedade, perceber em que a sua fé pode fazer diferença na vida social. Diante de tanta complexidade, a tentação mais fácil é simplificar o máximo para separar "os do bem" de "os do mal".
Essa simplificação me lembra a pergunta que os meus filhos, quando muito pequenos, me faziam ao assistir um filme: "pai, ele é do bem?" Se sim, eles torciam por aquele que "é do bem" contra o "do mal". Essa necessidade de separar os do bem e os do mal faz parte da condição mais primária do ser humano. O problema é que reduzir toda a complexidade da luta em favor da vida ao tema de ser favor ou contra a manutenção da criminalização do aborto é infantilizar a discussão política e, o que é pior, é infantilizar a própria religião que professa.
[Autor, em co-autoria com Hugo Assmann, de "Deus em nós: o reinado que acontece na luta em favor dos pobres"].
* Coord. Pós-Graduação em Ciências da Religião, Universidade Metodista de São Paulo
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