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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

As bolhas no meu sangue



"O nitrogênio residual é o nitrogênio remanescente no corpo após um mergulho, cujo tempo de demora para ser eliminado depende do tempo de mergulho e da profundidade atingida. (...) Caso a eliminação do nitrogênio residual seja deficiente (...) pode ocorrer a geração de bolhas de nitrogênio que não conseguem ser eliminadas do corpo humano, ficando retidas em tecidos ou na circulação sanguínea. Esta ocorrência é chamada de doença descompressiva."
— Wikipedia

Quando passo pelo aquário que decora o hall de um dos prédios da faculdade onde dou aula, sempre paro um minuto para olhar os peixinhos levando sua vida encaixotada. Eles, assim como nós, estão sempre alheios a um detalhe que só nos damos conta raramente: ambos, eu e os peixinhos, estamos mergulhados em um fluido, ele no líquido e eu no gasoso. E nem nos damos conta disso, a não ser nesses momentos reflexivos.

Peixes não costumam se aventurar muito do lado de fora de seu ambiente (alguns, sorte nossa, desconhecem essa regra...), mas nós humanos desenvolvemos um sem número de técnicas, ciências, equipamentos, máquinas e veículos que nos fazem ir lá onde os peixes vivem, mesmo nas profundidades mais abissais junto de seus parentes mais bizarros. O problema de ir tão fundo (e para humanos, qualquer 10m já configura uma atmosfera extra de pressão sobre nossos frágeis corpos) nem é vencer a profundidade, mas voltar dela.

Não sei quanto falta. Talvez nunca chegue a respirar ar limpo e puro de novo. Mas a pressão incômoda das tradições, da religião, da misoginia, principalmente do cáustico e silencioso machismo, talvez a substância mais resiliente da tabela periódica dos preconceitos, vai ficando cada vez mais para baixo. Já consigo ver o bruxulear da luz clara do sol atravessando a ondulante linha d'água. Tenho algumas bolhas no sangue, mas vão ser reabsorvidas ao longo da subida. Se ainda estou consciente que ainda estou imerso no frio oceano cultural que fui mergulhado quando criança, é com orgulho que vejo que estou hoje mais perto da superfície que estava ontem.

Ser gay e ser católico




Acreditamos firmemente na incondicionalidade do amor de Deus por cada um de seus filhos. Acreditamos também que a Boa Nova de Cristo foi, sim, que Ele veio para todos, sem distinção, e que a todos ama igualmente. Acreditamos que Cristo veio também para os excluídos, para os oprimidos, para os incompreendidos, para os perseguidos por serem aquilo que são.

Acreditamos na Santa Igreja Católica - a qual é não apenas o Magistério (a hierarquia do Papa e dos bispos), mas sim o corpo do povo de Deus que crê em Jesus Cristo e procura viver de acordo com Ele. Acreditamos que as posições do Magistério no decorrer de dois mil anos de história já passaram por inúmeras transformações e estão em constante mudança. E é preciso que seja assim, porque a revelação de Deus para nós se dá ao longo da História.

Esclarecemos que a posição oficial do Vaticano hoje, tal como expressa no Catecismo da Igreja Católica, não é de que a homossexualidade deve ser "combatida"; pelo contrário, a Igreja reconhece que os homossexuais foram criados por Deus tal como são e "devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á para com eles todo sinal de discriminação injusta" (Catecismo da Igreja Católica, 2358).

Do mesmo modo, a Igreja tampouco atribui ao papa ou à hierarquia do clero a primazia de detentores da Verdade. Com efeito, desde o Concílio Vaticano II e tal como expresso também no Catecismo da Igreja, esta reconhece o primado da consciência individual em sua relação com Deus.

O Vaticano II reconhece que cada ser humano deve antepor qualquer dever ou lei à sua própria consciência. “A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser”, diz o parágrafo 16 da Constituição Dogmática Gaudium et Spes.

O documento citado indica que a mediação plena para a ação do homem é a sua consciência. Obedecer à consciência é o que se pode fazer de melhor para agradar a Deus.

Para quem quiser se aprofundar no tema, indicamos a leitura das perguntas frequentes no nosso site -sobretudo a resposta a "Se a Igreja condena a homossexualidade, como é possível uma pessoa gay ser católica?".

Caso você tenha qualquer dúvida ou divergência e queira conversar, caro leitor, será sempre bem-vindo para uma saudável troca de idéias. Acreditamos que só com respeito às diferenças, tolerância e diálogo fraterno podemos efetivamente crescer no amor de Deus e cumprir a missão de ajudar na construção do Reino do Pai, que é também de cada um de nós.

Nosso forte e caloroso abraço.

Equipe Diversidade Católica

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Post publicado originalmente em 25/01/2011

Cristianismo maduro e responsável






Um comentário num post a respeito do Diversidade Católica num blog amigo andou nos dando o que pensar. O autor do comentário em questão, James Figueiredo, defendia que todos os cristãos são inimigos dos gays, e justificava:


Todas (veja bem, TODAS) as religiões abraâmicas são nossas inimigas, e não entendo o que mais seus representantes precisam fazer pra enxergarmos isso (a última semana foi bastante elucidativa nesse ponto).

E, sinceramente, admirar gays que lutam pra conciliar sua homossexualidade com suas superstições religiosa? PUH-LEAZE.

Gays religiosos são como...sei lá, judeus nazistas. Deveríamos é nos esforçar pra libertá-los dessas prisões que só alimentam suas dúvidas e minam sua auto-estima.


Ficamos imensamente gratos ao James, pois suas palavras deram margem a uma reflexão acerca do significado do cristianismo para os gays (leia a resposta na íntegra aqui), que reproduzimos em parte a seguir:

(...) Essa resposta é importante porque você, James, não é o único a pensar assim, e te agradeço muito por ter exposto a sua opinião. (...) Gostaria de sublinhar alguns pontos importantes a respeito deste tema, que talvez às vezes não fiquem claros para todo mundo.

Primeiro, religião e espiritualidade são coisas distintas. É muito comum as pessoas se esquecerem disso. Religião tem a ver com sistemas mais ou menos institucionalizados de expressão de uma determinada crença, estruturados ao longo do tempo, da história e das transformações culturais de um determinado povo ou grupo social. Em parte, é uma forma de expressão da espiritualidade tanto de cada membro desse povo ou grupo quanto do grupo em seu conjunto, mas envolve muitos outros fatores de ordem social e cultural também.

Já espiritualidade tem a ver com a necessidade humana de transcendência, isto é, de atribuir um significado à sua existência, um sentido à vida, um propósito à sua presença aqui e agora. Trata-se do conjunto de respostas que cada um procura dar àquelas perguntas que nos fazemos desde crianças: de onde vim? Para onde vou? Por que estou aqui? Para que estou aqui? Qual o sentido de tudo isto? Cada um encontra suas próprias respostas distintas, mas em geral todos nós nos deparamos com essas perguntas, e não sossegamos enquanto não encontramos uma resposta – embora seja comum também as respostas irem mudando ao longo da vida, mas isso já é uma outra história... :-)

O que acontece é que nós do Diversidade Católica encontramos no credo cristão, e especificamente na forma católica, a maneira com a qual mais nos identificamos para expressar nossa espiritualidade. Isso significa que o que dá sentido às nossas vidas é a mensagem evangélica de amor e serviço ao próximo, à luz de um Deus que é Pai e ama a cada um de seus filhos de maneira irrestrita e sem condições. E mais: o fato central e específico da nossa crença é que Cristo foi Deus encarnado como homem. Um Deus que se faz humilde e serviço aos seus filhos amados; que por amor se reduz à forma humana, por amor prega uma doutrina revolucionária, desmascarando todas as hipocrisias dos poderosos e da elite religiosa de seu tempo, e por amor aceita ser morto por essas pessoas, a fim de levar às últimas conseqüências sua mensagem de amor, humildade e não-violência. E, por amor, vence a morte e ressuscita, deixando-nos uma mensagem de esperança de que, por pior que as coisas sejam, no fim, Ele a tudo supera. (Se quiser se aprofundar nesse tema, dê uma olhada em “A Cruz: suplício ou esperança?” e “No sofrimento, Deus luta pela vida e solidariza-se com aquele que sofre”)

Desculpe, James, esse breve resumo da nossa profissão-de-fé, mas ele é importante para explicar que a crença na encarnação de Deus na figura do Cristo tem uma conseqüência fundamental para os cristãos: o fato de que é no humano, e não em uma imagem de Deus, qualquer que seja ela, que encontramos a transcendência, isto é, o significado último da nossa existência. É no serviço ao Outro que encontramos sentido. O projeto cristão, em sua origem, não é um projeto religioso (veja “O Cristianismo: uma religião ou a saída da religião?”); não é sequer um projeto de fé. É, antes de tudo, um projeto ético. (A esse respeito, dê uma olhada em dois posts nossos desta semana, de um teólogo espanhol: “Deus não está na fé, mas na ética” e “Estamos procurando Deus nos lugares errados”).

Chego então ao segundo ponto que gostaria de sublinhar: você certamente conhece cristãos cujas palavras e atos não têm nada a ver com o que acabo de expor. Eu conheço muitos; talvez até sejam a maioria. Ocorre que, ao longo desses dois mil anos de história, à medida que a história do cristianismo se misturava à história da Igreja e esta, à história do poder no Ocidente – taí aquela distinção entre espiritualidade e religião, viu? – foi se consolidando uma imagem de Deus que de certo modo se distanciou da mensagem evangélica. Por influências culturais (a absorção da doutrina estóica nos primeiros cinco séculos de nossa era, por exemplo, trouxe uma visão do corpo e da sexualidade como algo impuro, quando isso não era em absoluto um elemento original do cristianismo) e históricas (a desintegração do Império Romano, por exemplo, que alçou a Igreja à posição de centro agregador da cultura e da estrutura social da Europa Ocidental na Alta Idade Média), consagrou-se a imagem de um Deus identificado com o poder – e, de roldão com esse poder, veio a imagem de um Deus que julga, que oprime, que impõe ao homem o que é certo ou errado. Ou seja, um Deus que é um monarca totalitário e autoritário, profundamente humano, e que tem a importante função social de justificar as humanas estruturas de poder de seu tempo. Justamente a imagem e função de Deus tão criticada por Cristo em seu tempo. E justamente a antítese, portanto, do cerne da mensagem evangélica.

A questão é que, com o advento da ciência, esta nos fez o favor de desvincular da religião a prerrogativa de todo o saber sobre o mundo e explicação da vida. O que é ótimo, porque embora essa função tenha tido sua importância num determinado momento histórico, hoje a ciência a cumpre muito melhor. E pode restar à religião concentrar-se na espiritualidade – e esta, por sua vez, naquilo que só ela faz: dar conta da necessidade humana de transcendência.

O problema é que ainda existe por aí aquela imagem de um Deus opressor etc. E essa imagem é cada vez menos satisfatória, tem cada vez menos a ver com os anseios do coração humano. Daí o êxodo que as religiões mais institucionalizadas, especialmente os cristianismos, vêm sofrendo: porque essa imagem de Deus simplesmente não serve mais. Ou melhor: para alguns, serve. Há quem queira um Deus assim. Há quem procure justamente um Deus que lhe diga o que fazer, que diga o que é certo e errado, simplesmente, e lhe dê a segurança de que, se a pessoa fizer o que é certo e não fizer o que é errado, vai ganhar um prêmio, nesta vida ou numa outra depois. Você certamente conhece pessoas assim. Eu conheço pencas: são os fundamentalistas.

É com base nessa visão dualista de “isso é certo” vs. “isso é errado” que os fundamentalistas atacam a nós, gays. Nós “somos” errados e pronto. É uma visão de mundo muito simples e cômoda, mas também profundamente opressiva e esmagadora. Considerar que uma relação humana – hétero, homo ou o que for – pode ser saudável ou não dependendo das escolhas dos envolvidos é muito mais complicado e difícil (mas também muito mais libertador) que simplesmente pensar que “hétero é certo” e “gay é errado”. Quer saber? Perdem muito mais eles do que nós.

Terceiro – e, pra mim, o mais importante (embora raramente as pessoas não-religiosas levem esse fator em consideração ao nos dirigirem críticas como as suas, James): assim como a orientação sexual, a pertença religiosa é um aspecto inerente à identidade de cada um; como tal, não se trata de uma escolha. Por fatores da história de cada um talvez tão inescrutáveis quanto os motivos que fazem com que alguém seja gay, o fato é que algumas pessoas são cristãs. Algumas, especificamente católicas. Nós somos católicos. E gays. E não há nada que possamos fazer a respeito. Muitos de nós já tentaram “deixar de ser” católicos. Alguns “deixaram de ser” gays, também. Não funcionou. E foi MUITO libertador quando esses puderam se dar o direito de ser gays, de ser católicos. De ser o que são, em suma. (Mais dicas de leitura: “Permanecer e transgredir” e “Ficar ou sair da Igreja?”)

Confesso, James, que me preocupa muito ler “deveríamos é nos esforçar pra libertá-los dessas prisões que só alimentam suas dúvidas e minam sua auto-estima”. Desculpe, mas isso me soa tão parecido com a lógica de “ser gay não é bom pra você, precisamos te ajudar a deixar de lado isso que te faz muito mal”! É a mesma lógica que produz as famigeradas terapias de reversão. Não seria mais profícuo um exercício de respeito e tolerância à diferença, mesmo quando a gente não consegue entender a diferença do outro?

Por fim, o quarto ponto que eu gostaria de salientar: Igreja nenhuma, instituição nenhuma é um corpo único, com uma só voz. Nisso, James, discordamos inteiramente... A Igreja não é o Magistério, o clero, mas todo o corpo dos fiéis, cada qual com sua voz – e é uma verdadeira multidão de vozes. Nem mesmo o Magistério em si tem uma voz única. A imprensa presta um verdadeiro desserviço quando anuncia "Vaticano diz que...", "Bispos dizem que...", como se essa entidade abstrata sem rosto tivesse existência própria. Alimentar essa imagem contribui apenas para a demonização desse Outro, que vira meu "inimigo".

Tome-se, por exemplo, a recente atitude da Igreja no Brasil em relação ao julgamento da união estável gay no STF: enquanto a CNBB se preocupava em mandar um advogado para falar contra a aprovação (ai, sou humana: intensos frêmitos de vergonha alheia), existe uma infinidade de cristãos, católicos ou não, clérigos ou não, que defendem os direitos civis gays. Veja os seguintes exemplos: “A Igreja de peito aberto para as minorias”; “As vozes da Igreja”; “Padre coordena grupo que lançou consultoria online para público LGBT”; “‘Não vamos fazer nenhuma cruzada’, diz bispo em SP sobre união gay”; “Os gays e a Bíblia”; “Os gays entram nas igrejas”; “A Igreja de portas abertas para as vítimas da homofobia”; "União Civil e Nossa Voz" “Católicos pela igualdade matrimonial”; “União estável homoafetiva, um direito conquistado”, entre muitos outros.

A mesma Igreja que tantas atrocidades perpetrou ao longo da História (e perpetra ainda, inegavelmente) em nome de “Deus” (entre aspas porque é aquele Deus opressor cuja imagem serve apenas à perpetuação de estruturas humanas de poder, sem nada a ver com o Deus da mensagem evangélica) é a mesma que produziu Dom Helder Camara, José Comblin, Zilda Arns, Josimo Tavares, Oscar Romero, Dorothy Stang, Frei Betto, Leonardo Boff; os agentes da pastoral da AIDS, da pastoral da terra – que vêm sendo silenciosamente martirizados no norte do país – e tantos outros que colocam o amor e o serviço ao próximo no centro e acima de suas próprias vidas.

Assim como a sexualidade ou qualquer outro aspecto da vida humana, também a espiritualidade pode ser vivida de formas mais ou menos saudáveis. O cristianismo praticado de maneira positiva, James, é menos uma questão de fé e mais uma questão de valores, de uma espiritualidade madura e de uma ética sólida, que tira o ser humano do egocentrismo e o coloca numa relação aberta e responsável com os irmãos.

O Diversidade Católica existe para isto: para delimitar um território – a identidade que é nossa por direito, porque somos o que somos, católicos E gays, e ninguém pode dizer o contrário; e para ajudar seus membros a viver e praticar um cristianismo maduro e responsável em sua relação com Deus e com os irmãos.

Mais uma vez, a quem chegou até aqui, me desculpem pela extensão da resposta, e obrigada pela paciência. (...)

Fiquem com a graça e a paz de Cristo.

A dor do mundo





Por muito tempo achei – escrevi e disse – que os males humanos foram sempre mais ou menos os mesmos, e que a loucura toda já contamina o nosso café da manhã pelo universo cibernético. As aflições, as malandragens, as corrupções, os assassinatos absurdos, os piores aleijões morais, tudo é meu, seu, nosso pão de cada dia. Mas, de tempos para cá, comecei a achar que era lirismo sentimental meu. Estamos bem piores, sim. Por sermos mais estressados, por termos valores fracos, tortos ou nenhum, porque estamos incrivelmente fúteis e nos deixamos atingir por qualquer maluquice, porque até nossos ídolos são os mais transtornados, complicados. Nossos desejos não têm limite, nossos sonhos, por outro lado, andam ralinhos. Temos manias de gourmet, mas não podemos comer. Vivemos mais tempo, mas não sabemos o que fazer com ele. Podemos ter mais saúde, mas nos intoxicamos com excesso de remédios. Drogas habituais não bastam, então usamos substâncias e doses cavalares.

A sexualização infantil é um fato e começa em casa com mães amalucadas e programas de televisão pornográficos a qualquer hora do dia. O endeusamento da juventude a enfraquece, os adolescentes lidam sozinhos com a explosão de seus hormônios e a permissividade geral que anula limites e desorienta. A pressão social e até a insistência de governantes nos impõem o deus consumo, que nos deixa contentes até as primeiras, segundas, definitivas dívidas baterem à porta: a gente abre, e está atolado até o pescoço.

Uma cantora pop, que me desinteressava pela aparência e por algumas músicas, morre, mata-se, por uso desmedido de drogas (álcool sendo uma delas) aos 27 anos. Logo se exibe (quase com orgulho, ou isso já é maldade minha?) uma lista de brilhantes artistas mortos na mesma idade pela mesma razão. Nas homenagens que lhe fazem, de repente escuto canções lindas, com uma voz extraordinária: mais triste ainda, pensar que esse talento se perdeu. Um louco assassino prepara e executa calmamente a chacina de dezenas de crianças e adolescentes num acampamento em ilha paradisíaca das terras nórdicas, onde o índice de desenvolvimento humano é o maior do planeta, e quase não existe a violência, que por estas bandas nos aterroriza. Explode edifícios, depois vai até a ilha, mata todo mundo, confessa à polícia que fez coisas atrozes mas que “era necessário”, e que não aceitará a culpa.

Viramos assassinos ao volante, de preferência bêbados. Nosso edifícios precisam ter portarias treinadas como segurança, nossas casas, mil artifícios contra invasores, andamos na rua feito coelhos assustados. Não há lugar nas prisões, então se solta a bandidagem, as penas são caca vez mais brandas ou não há pena alguma. Pena temos nós, pena por nós, pela tão espalhada dor do mundo. Sempre falando em trilhões, brigando por quatrilhões, diante da imagem das crianças morrendo de fome na Etiópia, na Somália e em outros países, tão fracas que não têm mais força para engolir o mingau que alguma alma compadecida lhes alcança: a mãe observa apática as moscas que pousam no rostinho sofrido. Estou me repetindo, eu sei, talvez assim alivie um pouco a angústia da também repetida indagação: que sociedade estamos nos tornando?

Eu, recolhida na ponta inferior deste país, sou parte dela e da loucura toda: porque tenho alguma voz, escrevo e falo, sem ilusão de que adiantará alguma coisa. Talvez, como na vida das pessoas, esta seja apenas uma fase ruim da humanidade, que conserva fulgores da solidariedade e beleza. Onde não a matamos, a natureza nos fornece material de otimismo: uma folha de outono avermelhada que a chuva grudou na vidraça, a voz das crianças que estão chegando, uma música que merece o termo “sublime”, gente honrada e produtiva, ou que cuida dos outros. Ainda dá para viver neste planeta. Ainda dá para ter esperança de que, de alguma forma, algum dia, a gente comece a se curar enquanto sociedade, e a miséria concreta não mate mais ninguém, enquanto líderes mundiais brigam por abstratos quatrilhões.

- Lya Luft
Reproduzido via Conteúdo Livre

sábado, 9 de abril de 2011

Diversidade Católica: Amar a nossa falta mesma de amor

Diversidade Católica: Amar a nossa falta mesma de amor: "Foto: Matilde Berk Que pode uma criatura senão, senão entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e..."

Diversidade Católica: Alegria: a experiência de ser em Deus

Diversidade Católica: Alegria: a experiência de ser em Deus: "Podemos nos alegrar de diferentes modos e por diferentes motivos. É justamente essa diversidade de fontes da alegria que a torna ainda mai..."

terça-feira, 5 de abril de 2011

Balada Por Um Reino

Por causa de um certo reino, estradas eu caminhei
Buscando, sem ter sossego, o reino que eu vislumbrei
Brilhava a Estrela Dalva e eu quase sem dormir,
buscando este certo reino e a lembrança dele a me perseguir!
Por causa daquele reino, mil vezes eu me enganei!
Tomando o caminho errado, errando quando acertei!
Chegava ao cair da tarde, e eu quase sem dormir,
buscando este certo reino e a lembrança dele a me perseguir!
Um filho de carpinteiro que veio de Nazaré,
mostrou-se tão verdadeiro, pôs vida na minha fé
Falava de um novo reino, de flores e de pardais,
de gente arrastando a rede, que eu tive sede da sua paz!
O filho de carpinteiro falava de um mundo irmão;
De um Pai que era companheiro de amor e libertação
Lançou-me um olhar profundo, gelando o meu coração;
Depois me falou do mundo, e me deu o selo da vocação!
Agora quem me conhece, pergunta se eu encontrei
o reino que eu procurava, se é tudo o que eu desejei
E eu digo pensando nele: no meio de vós está
o reino que andais buscando, e quem tem amor compreenderá!
Jesus me ensinou de novo, as coisas que eu aprendi,
por isso eu amei meu povo e o Livro da Vida eu li
E em cada menina moça, em cada moço rapaz,
eu sonho que a minha gente será semente de eterna paz!